Dr. Décio Iandoli Jr

Desabafo

by Décio Iandoli Jr. on set.29, 2009, under Inicial

Sempre digo que não me tornei espírita, mas que descobri que era após ler “O Livro dos Espíritos”, e posso dizer exatamente por que:

O espiritismo é, essencialmente, lógica e racionalidade, não se utiliza de metáforas, e todos os conceitos são colocados de forma clara afim de não deixar dúvidas, e acredito que todos vão concordar comigo que não deixou.

O espiritismo não é religião, é mais que isso, não é filosofia, é mais que isso, não é ciência, é muito mais que isso, pois é isso tudo ao mesmo tempo, gerando uma base sólida, uma moral irrefutável um novo ponto de partida, mais seguro que qualquer outro que a humanidade já tenha utilizado como premissa.

O espiritismo permite que deixemos de ser cindidos, preservando nossa personalidade, na medida em que podemos unir a nossa vida social com a nossa vida espiritual e com a nossa vida profissional, sem a necessidade das máscaras ou dos compartimentos que criamos em nossa personalidade para sermos aceitos em todos os meios que transitamos, mimetizando aquele em que nos encontramos.

A obra de Kardec nos dá este alicerce fundamental sobre o qual esta se construindo um saber revolucionário, na medida em que vai fundindo todo o conhecimento humano como nos propôs o filósofo contemporâneo Edgar Morin, e que nos parece um apelo irresistível diante de tudo o que já acumulamos até aqui.

O espiritismo, então, ainda hoje é uma proposta revolucionária de aprender, pois já em 1857 propunha um único caminho que abarcava ciência, filosofia e religião.

Porém, isso tudo já sabemos, isso tudo me parece tão claro, como parece muito claro que a moral cristã é a grande notícia trazida pelo espiritismo; é a moral cristã proposta, colocada e não imposta, minuciosamente explicada em todos os seus porquês pelo nosso mensageiro do Cristo.

Descobri e abracei-o com todas as minhas limitações, imperfeições e ignorância, mas também com toda a minha vontade e com todo o meu coração. Passei a vivenciar o movimento espírita e, com o tempo, participar mais ativamente dele compartilhando de centros espíritas, congressos e simpósios, porém, esta “lua de mel” foi terminando na medida em que fui percebendo o tamanho de minha ingenuidade diante da pretensão que tinha de admitir, nas fileiras espíritas, apenas pessoas diferentes das demais, com uma orientação que promovesse um comportamento coerente com aquilo que é pregado e difundido pela doutrina.

Espíritas que pregam a caridade, maldizendo companheiros por um motivo ou outro. Espíritas se reunindo em grupinhos vinculados a personalidades de destaque e que passam a combater-se por questões menores buscando hegemonia. Espíritas proclamando idéias frontalmente antagônicas à moral cristã em nome de uma falsa modernidade e de uma posição de vanguarda que só acusa o grau de ignorância com relação às próprias idéias fundamentais do pensamento de Kardec, e pior, espíritas que usam a letra fria de “O Livro dos Espíritos” para gerar interpretações literais a questões que nunca poderiam ter sido abordadas naquela época, como o uso de células tronco ou o momento do início da vida, menosprezando o conhecimento científico e repetindo um comportamento, tão criticado por nós espíritas, de alguns de nossos irmãos que professam outras formas de cristianismo.

Que herança é esta que nos faz tão hipócritas ao ponto de tecer comentários desagradáveis a respeito de espíritos aos quais não chegamos nem aos pés? Que dificuldade imensa de praticarmos a humildade que tanto exortamos e que nem mesmo enxergamos quando vemos diante de nós, como a exemplificada por Chico Xavier? E por falar nisso, não estamos endeusando o Chico quando, apenas, damos a ele o devido reconhecimento por sua obra e exemplo de verdadeiro cristão.

Aonde pretendemos chegar se não nos preocupamos em, ao menos, tentarmos ser aquilo que anunciamos como lema de vida e princípio ético e moral?

Não somos espíritas para sermos modernos, mas verdadeiros, o que, nos tempos em que vivemos, já é tão moderno que chega a ser revolucionário.

Não somos espíritas para convencer os outros de que estamos certos e eles errados.

Não somos espíritas para buscar nas comunicações mediúnicas, “dicas” sobre nosso futuro ou nosso passado.

Ou somos?

Que reforma íntima eu posso providenciar se não olho para meus próprios erros? Que transformação íntima eu busco se procuro apenas o conforto da opinião pública e ignoro a opinião íntima?

Minhas decepções têm sido constantes e profundas, não com o espiritismo, que se mantém irretocável e cada vez mais forte com o desenvolvimento científico, mas comigo mesmo, na medida em que tenho tido muita dificuldade em entender e aceitar, meus irmãos de doutrina que têm mostrado, fartamente, todo este paradoxismo que existe entre o que somos e o que deveríamos ser.

Tiremos de Kardec o que ele nos deu de mais precioso, a sólida base moral explicitada em seus detalhes filosóficos que nos chamam à razão e também ao coração, e tiremos da obra mediúnica de Chico Xavier, o que ela nos traz de mais importante, qual seja, a contextualização desta doutrina para os dias de hoje e o apelo ao direcionamento filosófico e científico para o amor, mas não transformemos a obra destes pilares da evolução humana, em uma caricatura desviada de seu eixo central, como muitos fizeram com a mensagem de Jesus, fazendo surgir uma verdadeira cruzada intelectual onde a espada é a palavra, levando em Seu nome, irmãos à morte à dor e ao sofrimento.

Este é o meu desabafo, demonstrando minha desilusão pela falta de caridade, firmeza doutrinária, paciência e humildade, que tenho observado naqueles que, por conhecerem tão bem a lei, são mais culpados de não segui-la, deixando bem claro, que começo a crítica por mim mesmo.

Perdoem-me a arrogância que possa demonstrar aqui, mas a compreensão que tenho da lição deixada por Jesus e especificada por Kardec, leva-me à conclusão de que espírita que apóia o aborto, que não defende a vida, que não respeita a oportunidade alheia, que quer “reformar” a doutrina, que me perdoem, mas não são cristãos, portanto, não são espíritas, por uma questão de definição e não de intolerância.

Se ainda não compreendemos o básico, de que adianta nos debruçarmos na profundidade científica e filosófica que o espiritismo nos oferece?

Não tive a intenção de atacar ou criticar ninguém além de mim mesmo, mas peço que façam com este texto, aquilo que imaginei que eu mesmo deveria fazer:

REFLETIR


8 Comments for this entry

  • Marília Carolina Vaz Barbosa

    A maior luta do ser humano é sempre contra sua própria ignorância. Não me parece seja diferente no meio espírita.
    Vejo que, muitas vezes, o “telhado de vidro” realmente não impede que se atirem pedras. Somos os primeiros a atirá-las, ainda que o façamos em nome de nossa própria reforma interna.

    Graças a Deus os Bons Espíritos não nos viram as costas!
    Com fé, estudo, reforma íntima e caridade A GENTE CHEGA LÁ!

    Abraço fraterno.
    Marília

  • Décio Iandoli Jr.

    A gente chega lá sim Marília, com certeza…
    É nosso destino

  • Ubirajara Frontin de Oliveira

    Décio
    Tive a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo vc em um congressso em Washington e fiquei muito feliz por poder estar ali e participar desse evento. Comprei seu livro na época (não me lembro qual).
    Recebi hoje um informe da AME sobre o I Simposio sobre Envelhecimento e Espiritualidade e observei seu nome que lá constava abrindo o evento.
    Não poderei estar presente pois compromissos agendados me impedem de estar em SP
    Abri o site e li o seu “desabafo” que não deixa de ser o desabafo de muitos que tem a mesma opinião.
    Hoje estou dirigente de uma Instituição Espírita no RJ com cerca de 150 trabalhadores e fazendo um esforço muito grande para que não venhamos a cair na hipocrisia e no comportamento de ser espírita na aparência.
    Fazemos muitos trabalhos interpessoais para que justamente nos conhecermos melhor e seguirmos o estudo de Kardec mas sempre fazendo o link com nossa postura e não com a postura daqueles que se encontram ao nosso lado.
    Decio gostaria muito que vc pudesse um dia vir ter conosco no RJ e nos ensinar um pouco mais, ainda mais com essa visão “desabafo”.
    Estamos sempre com muita vontade de aprender e não medimos esforços para convidar pessoas que possam contribuir para o nosso crescimento.
    Já tivemos o prazer de ter conosco a Ercilia Zili, o Alkindar e muitos outros que nos deram momentos de reflexão e melhora nos nossos trabalhos.
    Fica feito o convite aguardo seu retorno
    Um grande abraço
    Bira

  • Décio Iandoli Jr.

    Caro Ubirajara.
    Muito obrigado por suas palavras generosas, eu iria com o maior prazer falar em sua casa, vamos ver a agenda.
    Por favor me escreva e tentaremos combinar uma oportunidade

    Um abraço

    iandolijr@uol.com.br

  • Elen Jane Cardozo de Souza

    Prezado Doutor,
    Gostaria de parabenizá-lo pelo Blog, pois assim os espíritas com acesso a internet, em qualquer ponto, podem compartilhar de seus conhecimentos . Gostei muito dos temas que abordou e também da forma como o fez. Acompanho seu trabalho já há algum tempo, e dentre as oportunidades em que pude assisti-lo, destaco as suas visitas ao RS, em 2006, na AME Pelotas, no Mednesp 2009 em Porto Alegre e no Seminário Estadual da cidade de Rio Grande 2009, que é onde resido. Em todas as ocasiões, suas exposições, foram feitas de forma criteriosa e enriquecedoura, muito acrescentando ao estudo da Doutrina Espírita, para todos os participantes; por isso desejo-lhe muita Paz , Luz e Perseverança, para que possa dar continuidade ao trabalho que vem desenvolvendo.
    Cordiais Saudações
    Elen Jane C. de Souza
    Rio Grande- Rs

  • Décio Iandoli Jr.

    Elen

    Muito obrigado por seu apoio e pelas palavras generosas

  • Sílvio Butx

    Querido dr. DÉCIO, parabenizo-o pelo “desabafo”. Que para mim representou um excelente alerta. Considero-me ESPÍRITA. Minha esposa e minhas filhas também são Espíritas. Confesso-o que sou muito preocupado com a pureza doutrinária, sem os excessos do fanatismo e sem comportamento “xiita”. Nós temos um manancial maravilhoso de informações das mais variadas situações da vida, oriundas da Doutrina espírita, e, se não nos cuidarmos, podemos desviar do caminho seguro que devemos seguir, pois, para mim, representa o Evangelho de Jesus, redivivo. Um fraterno abraço. Continue a nos oportunizar com textos tão bons, quanto esse seu “alerta”.

  • Leandro Valente

    Dr. Décio tive o prazer imenso de fazer uma pequena consulta porém, de uma grande contribuição para o meu psicológico espiritual. Não sei se lembra, mas falei de uma espécie de transtorno espiritual que há um tempo surgiu em mim, num simpósio chamado SIMESPE que aconteceu em Pernambuco agora em 2010. Falei com o Sr. na livraria. O senhor pediu-me que escrevesse-lhe pois gostaria de acompanhar o caso. Não sei se estou escrevendo no lugar certo para entrar em contato convosco, mais não custa tentar possa ser que no futuro me responda. Li seu desabafo, e não só concordo inteiramente com ele como já posso dizer que vivi inteiramente o foi descrito acima. E não só o emprego me afastou do movimento ao qual eu fazia parte, mais esse afastamento teve grande contribuição de uma espécie de fanatismo enraizadas na mente de alguns “trabalhadores” do Cristo. Agradeço mais uma vez tanto pelo desabafo quanto pela ajuda. Grande abraço.

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